Janelas de Vidro, Planetas de Algodão-Doce
Olhando o movimento frenético dos carros na avenida em frente ao meu trabalho — que passam rápidos e, posso supor, apressados —, eu me pergunto para onde vão. Podem eles irem parar em lugares mais distantes do que aqueles que acesso com os pensamentos dentro da minha mente? O lugar físico para onde os carros estão levando essas pessoas (que dirigem rápido e não sei se tão atentas quanto deveriam) seria mais interessante do que onde eu estou agora? Sou um mero observador dos deslocamentos de estranhos, sentado, olhando-os pela vidraça. Mas estou com a cabeça a mil, pensando no planeta que o telescópio James Webb observou e que tem, segundo os cientistas, semelhanças com algodão-doce — algo que eu clamava para comer na infância. Se eu fosse astronauta e chegasse nesse planeta, morreria de diabetes de tanto comê-lo?
Se eu viajasse para o espaço, gostaria de ir ouvindo uma banda chamada Love, Coma, que tem um álbum chamado Astronaut. Não seria a trilha sonora perfeita para o espaço sideral? Esse planeta de algodão-doce fica tão longe da Terra que embarcar para lá poderia significar simplesmente me despedir de tudo o que existe aqui, pois seria quase impossível voltar. Qual o propósito de viajar para o desconhecido deixando tudo o que conheço e amo para trás? Aventura, desapego, loucura, senso de dever? O que poderia justificar algo assim? Uma imensa vontade de comer algodão-doce?
Voltando aos carros, hoje em dia só existem veículos brancos, pretos e pratas, praticamente. Onde estão os carros azuis, amarelos, vermelhos e de tantas outras cores que povoaram a minha meninice? Por que a sociedade encaretou tanto ao ponto de desistir das cores? Ao mesmo tempo, já não vejo muitos locais vendendo algodão-doce, seja nos parques ou nos shoppings. Outro dia, vi uma versão "gourmet" e me deu vontade de chutar o carrinho e a pessoa que o anunciava. Provavelmente só compra essa bobagem quem tem uma BMW preta. Francamente...
Os carros, que não sairão rumo ao espaço sideral, mas têm pressa demasiada — e creio que alguns motoristas até gostariam de dirigir na velocidade da luz —, seguem lépidos rumo a sei lá onde. Eu permaneço aqui, esperando meus clientes entrarem no plantão para me trazerem de volta à Terra. Se não de forma corporal (onde já estou, afinal), ao menos de forma que meu espírito habite, junto com meu corpo, o mesmo espaço. Pois ele, meu espírito, está longe, longe demais dessa bagunça organizada por carros de cores sem graça em que vivemos.
É isso.
Ouvindo: Raul Seixas – Plunct, Plact, Zum
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