Notas Sobre o Fim e o Concreto
Quando Richard, o genial personagem de Ed Harris em As Horas, vira-se para Clarissa — interpretada pela não menos incrível Meryl Streep — nos segundos que antecedem sua morte, ele diz: "Acho que só me mantive vivo até hoje para agradar você". Em seguida, deixa seu corpo flutuar em direção ao solo, jogando-se da janela aberta de seu apartamento. Naquele exato momento, há 24 anos, assistindo ao filme ao lado da minha namorada da época, Fabíola, no cinema do Shopping Santa Cruz, eu me vi sem palavras. Nenhum pensamento se conectava de forma clara. Eu me vi sem ar.
Não havia raiva a se sentir, nem medo da queda, nem angústia. Não havia dor pelo destino do personagem, tampouco por Clarissa, que gritou de forma abafada e sentida. Não havia tragédia a ser analisada ou lágrima a se verter. Só havia o entendimento cristalino, puro e simples, de que às vezes parece não haver nada melhor que o fim — ainda que o fim seja a morte, ainda que ele liberte de forma definitiva e irreversível, e mesmo que não traga qualquer elaboração posterior.
Essa cena me persegue há mais de duas décadas e eu a revejo de tempos em tempos. Ao olhar para a minha própria trajetória, com toda a sinceridade e humildade, às vezes me pego questionando os motivos de continuar, sem saber a quem uma interrupção traria algo além de alívio e alento. Claro que não me comparo a um personagem tão denso e complexo quanto o Richard; sou alguém comum, e minhas tentativas de escrever o que quer que seja parecem fracassar de forma retumbante, entregando textos sem o brilho ou a profundidade dos autores que admiro — arremedos que me envergonhariam até a alma caso fossem lidos por uma crítica séria.
No entanto, o que me consome é o fato de não deixar de pensar que, nos segundos que antecederam a queda, naqueles poucos instantes, Richard sentiu-se liberto e, por consequência, feliz. Ao voar rumo ao abismo — que não era profundo, pois tinha o chão da rua como base —, ele teve tempo de sorrir e talvez abrir os braços, imitando um pássaro que, embora inábil na arte de voar, despedaçou-se em mil fragmentos ao chocar-se contra o concreto duro da calçada. Aquele impacto desfez qualquer ilusão de felicidade terrena, levando-o ao encontro de um mundo onde habitam os mortos: um lugar silencioso e sem cobranças, onde, se não há belo a se contemplar, ao menos não há horror para se viver.
Um voo que se sabe fracassado desde o início pode encontrar redenção no seu término. É assim que a vida por vezes se desenha para mim: sem grandes chances de mudança terrena, mas sugerindo que talvez a morte reserve a glória do silêncio eterno. As Horas, baseado em Mrs. Dalloway e na vida da própria Virginia Woolf, me enternece porque, como Richard, sei que ainda que por breves momentos fiz alguém feliz; e me entristece porque, exatamente como ele, sinto que acabo me tornando um fardo e uma fonte de tristezas com o passar do tempo. Ele existe apenas na ficção. Eu, que habito o mundo real, às vezes me sinto uma fraude que seduz com palavras no começo, mas que traria real alegria ao partir. Perco-me pensando se já não seria a hora.
É isso.
Ouvindo: La Mamma Morta
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