O Futebol Sem Alma e a Copa dos Donos do Poder
E sobre a Copa do Mundo — que para mim acabou ontem com a eliminação do Brasil —, cabem algumas notas.
Começo pela nossa desclassificação. Quando foi que o Brasil passou a jogar um futebol tão medroso e burocrático, que não deixa o menor espaço para a improvisação ou para o talento despontar livre de amarras? Nós perdemos não para a Noruega, que joga um futebol sem graça e sem emoção, mas para o nosso próprio medo de ganhar. Quando temos medo de vencer, a derrota é certa. Infelizmente, parece que "garra" virou uma palavra proibida nesta seleção; ela sumiu, ou melhor, nem deu as caras em um jogo sequer. Foi, talvez, a pior seleção que já vi jogar defendendo o Brasil. Lamentável.
Nesta mesma Copa, a seleção de Cabo Verde, por não ter nada a perder, resolveu tentar ganhar e arrancou um sorriso de todos os que gostam de futebol. Jogou como se não houvesse amanhã, como se cada partida fosse a última. Ao atuar dessa forma, entregou um nível de entretenimento como há muito não se via. Fez-nos rir e chorar de emoção, lembrando-nos de que ainda existe quem leve o futebol a sério.
Trump, para variar, conseguiu manchar até um evento esportivo da magnitude da Copa do Mundo ao pedir — ou melhor, exigir — e, pior, conseguir que um jogador vital para o time americano, corretamente expulso na fase anterior, tivesse seu cartão desconsiderado. Graças a essa aberração totalmente antidesportiva, ele poderá jogar a próxima partida sem cumprir a suspensão automática que, por regra, deveria cumprir. A FIFA, apequenada, curvou-se ao poderio americano.
Por outro lado, há que se ressaltar a beleza do protocolo de abertura das partidas. As seleções entrando por entre as bandeiras de seus respectivos países, a execução dos hinos... Tudo muito bonito e organizado. Essas cerimônias são o que, até aqui, a Copa entregou de mais belo, além da festa das torcidas — estas, sim, um capítulo à parte.
Para finalizar, a falência moral que as bets promovem não apenas na Copa, mas no futebol mundial como um todo, atingiu seu ápice com a vergonha da CazéTV. Não fosse a intervenção do Ministério Público, continuariam a exibir as odds de apostas durante os jogos, enxovalhando todo e qualquer espírito esportivo que pudesse haver em um evento como esse. E, segundo seu sócio, o próprio Cazé, agiam assim porque "nada paga mais do que as bets". Isso não é capitalismo; é banditismo mesmo.
A Copa acabou, ao menos para mim. Agora, resta-me aguardar a temporada da NFL.
É isso.
Ouvindo: Skank – Uma Partida de Futebol
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