O Universo Fica Melhor Sem Nós
A quem importa se a chuva não cair onde mais se precisa que ela caia, e não cessar onde as águas já são suficientes? E quem liga se o Sol escaldante continuar a castigar os mais desfavorecidos em grotões do mundo que, de tão subdesenvolvidos, quase ninguém sabe que existem? Se a água — um recurso finito — é hoje mais utilizada para resfriar data centers do que para matar a sede de países que não a têm em quantidade suficiente, quem liga?
E se as geleiras derretem e vão invadir cidades costeiras levando destruição e morte em um futuro próximo, parece imperativo que se inventem mentiras para tranquilizar seus moradores enquanto a realidade não atropele essas falácias de forma inexorável. Quando a realidade se impor, não haverá inteligência artificial que nos proteja de nosso destino de danação.
Houve um tempo, bem lá atrás na nossa breve história neste planeta, em que poderíamos ter evitado o que hoje parece inevitável. Governantes poderiam ter barrado a ganância de grandes corporações — e a sua própria —, criando mecanismos de regulação que impedissem o desmantelamento da natureza ao ponto em que chegou.
A catástrofe virá de forma irônica. Não porque nos faltou ferramental para evitá-la, mas porque nos faltou vontade de pressionar os que decidem por nós. Nossa obsessão por carros cada vez mais potentes e aviões mais rápidos; nossa demanda por uma agricultura que, em vez de sustentável, fez-se extrativista, aniquilando culturas inteiras em nome de outra mais rentável; nossa volúpia por energia, ainda que de matrizes poluentes e assassinas de ecossistemas... Tudo isso aliado ao ego humano — insuperável em tamanho e em estupidez —, que nos faz pensar que sempre daremos um jeito na hora H.
Pois bem: não daremos. Não desta vez.
Por mais paradoxal que seja, estamos enxergando cada vez mais longe no espaço sideral via James Webb. Mas são apenas vislumbres de lugares onde não teremos tempo de chegar, pois o mundo vai definhar e acabar antes de qualquer rascunho de tecnologia que nos leve até lá. E se, por milagre, essa tecnologia surgir, levará apenas alguns poucos afortunados — os mesmos que são responsáveis pela morte do nosso planeta, diga-se de passagem. E, por mais bizarro que seja, seremos nós a financiar essa viagem para a qual não seremos convidados a embarcar.
Esse grito de alerta, que ninguém ou quase ninguém lerá, não tem um final otimista. Uma onda de mortes na Europa — veja bem, não estamos falando da África, mas da Europa — mostra que o caos chegou, e chegou para ficar. Não é uma questão de se o fim virá, mas de quando. Devemos nos preparar para perder entes queridos para o frio extremo, o calor extremo, a chuva extrema. E não existe medida extrema que nos salve de tudo isso.
Talvez — e ao menos para mim é um tremendo talvez — a fé nos salve. Mas que fé? Em um índio que virá em uma estrela colorida e brilhante? No Deus judaico-cristão? Buda? Maomé? Shiva? Será que eles se importam e têm disposição para limpar todo o lixo que produzimos, muitas vezes em nome de cada um deles, usando-os como escudo para nossas ambições desmedidas?
Se um índio pretende vir, eu apenas diria a ele: "Fique onde está e deixe-nos com nosso merecido castigo". Ainda que você ou outra divindade venha e nos salve, será questão de tempo para virarmos as costas ao seu favor e o culparmos seja lá pelo que for.
O universo fica melhor sem os seres humanos.
É isso.
Ouvindo: Milton Nascimento
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