Se Beethoven Ouvisse o Rei do Baião
Karen Carpenter, cantando Close To You com toda aquela doçura que sua voz possuía e, ao mesmo tempo, tocando bateria — seu instrumento de excelência —, me fez pensar: era ela melhor cantora ou melhor baterista? Se ela fosse melhor em uma atividade do que na outra, deveria ter concentrado todos os seus esforços apenas naquilo em que superava? E quem, afinal, pode julgar tal questão?
E o seu irmão, Richard? Era melhor pianista ou melhor compositor? Cantor, jamais saberemos, pois limitava-se a fazer vocais de apoio para a irmã, no máximo duetos em que era sempre eclipsado pela voz de Karen. Muitos críticos diziam que suas canções e arranjos lembravam mais jingles publicitários do que música de verdade. Mas jingle, então, não é música?
Existe "música de verdade"? O que seria, então, uma "música de mentira"? De novo: quem tem a posse dessa métrica para definir o que é arte e o que não é; o que é bom e o que é ruim? Se eu não gostar de Van Gogh, ele passa a ser um pintor ruim apenas porque não me agrada? Ou ele é um excelente pintor só porque assim definem os críticos especializados?
Temos o direito de parametrizar a arte, sendo que o que ela tem de melhor é a capacidade de nos tocar individualmente, acessando lugares específicos — e muitas vezes obscuros — que existem dentro de cada um de nós? A arte traz lembranças particulares, provoca associações que só são possíveis pela vivência singular de cada indivíduo. Como, afinal, padronizar o canto de Karen? Ela não seria julgada com muito mais rigor na parte vocal por Maria Callas, que talvez a considerasse apenas uma brilhante baterista, ao passo que Ringo Starr, o baterista dos Beatles, a acharia uma cantora formidável?
Uma vez que a arte é produzida para tocar as pessoas — ou ao menos deveria ser —, dá para rotular o que é arte boa e arte ruim? A obra de Luiz Gonzaga vale menos que a de Beethoven? Será que, se Beethoven tivesse ouvido o Rei do Baião, não teria se enamorado por sua música? Afinal, músicos costumam ouvir tudo de forma mais atenta e com a mente mais aberta do que os ouvintes comuns, desprovidos dessa mesma sensibilidade artística.
Virginia Woolf leria este meu texto com enfado ou buscando nele ecos de seu próprio fluxo de consciência? E eu, que amo a literatura e amo escrever, tenho meu gosto "contaminado" por esse amor e tendo a buscar o melhor de cada escritor que me disponho a ler? Ou, ao contrário, sou severo demais, acho tudo uma porcaria e acabo elegendo apenas alguns poucos e bons para habitar meu panteão particular de sacralidades literárias?
A arte, no fim das contas, não oferece respostas; ela suscita perguntas. Se não gera questionamentos, provavelmente não é arte — é apenas assessoria de imagem de quem a produziu.
É isso.
Ouvindo: The Carpenters
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