A Finitude, o Mar de Cristal e o Silêncio


Eu sempre digo às pessoas quando elas se despedem de mim: "vai com Deus". Por mais que isso possa ser uma convenção social comum às pessoas da minha geração — que cresceram sendo ensinadas que Deus existe e nos protege —, eu sinto de fato uma sinceridade em meu desejo de que Deus acompanhe a pessoa que de mim se despede.

E eu de fato queria poder restaurar a crença total e irrestrita neste Deus que me ensinaram que existe — ou mesmo em qualquer outro deus que fosse —, mas não consigo. Aos 53 anos, me sinto dividido entre o desejo de crer e a racionalidade de duvidar da existência de qualquer espécie de divindade. Um dos principais motivos talvez seja exatamente o fato de eu ter sido ensinado que Deus é um só, o Judaico-Cristão, e que todos os outros são representações mentirosas e irreais, baseadas ou no desejo de afrontar o Deus de Isaque, Abraão e Jacó, ou de rivalizar com Ele pela atenção da humanidade.

Seja como for, não deveriam existir vários deuses e liberdade de credo para todos, cada um com seus rituais e desejos de serem adorados próprios, sem que isso interferisse na individualidade de nós, simples mortais? Não deveríamos parar de guerrear por religião, por deuses, por aspirantes a deuses ou por interpretações da palavra de Deus ou dos deuses? O que houve, afinal? Deus não soube se explicar para os humanos ou Ele gosta de guerras em Seu nome? Se gosta, como posso cultuá-Lo? Se não gosta, por que não esclarecer os fatos?

Se Deus, esse Deus de quem estou falando, é amor e também justiça, por que a cada dia mais o mundo é injusto e o desamor predomina? Ok, pode-se dizer que o mundo tem virado sistematicamente as costas para Ele, mas não poderia Ele nos sinalizar os erros e nos acenar em reconciliação? Claro que a Bíblia nos conta que Ele fez o maior dos sacrifícios, que foi enviar o Seu filho Jesus para morrer por nós e nos redimir dos pecados cometidos. Mas existiu alguém no mundo, em todos os tempos, mais incompreendido que Jesus? Quantas pessoas hoje se digladiam por interpretações completamente equivocadas de tudo o que ele disse? De que nos adianta a sua vinda se seu exemplo não é seguido, e sim distorcido o tempo todo?

Se Ele de fato existe — assim como seu Filho e o Espírito Santo —, também existe o Diabo, o seu antagonista, não é isso? Se aquele que é chamado de "o enganador das nações" está por aí a solta, lépido e fagueiro, enganando a todos que se deixam enganar, isso também não é uma prova de que, nessa luta de divindades e malignidades, somos nós que estamos no centro dela, os que mais sofrem? E esse sofrimento não se arrasta praticamente desde a fundação da Terra?

Somos coadjuvantes nesse teatro de guerra e lutamos nós mesmos as nossas batalhas, desejando sempre que Deus (e uns poucos que o Diabo) nos acompanhe — o que significa, ao meu ver, que sempre vamos achar que a razão está do nosso lado, pois Deus é o senhor da razão, embora seja impossível estar certo sempre.

Eu gostaria, a essa altura da vida, de acreditar em Deus, porque o fim da história que me contaram a vida toda é bonito. Envolve um lugar com ruas de ouro, mar de cristal, flores que nunca murcham e leões e cordeiros andando lado a lado sem que o leão devore o pobre cordeiro. Mas, ao olhar ao redor, vejo esgoto a céu aberto, mares revoltos, leões e cordeiros se engalfinhando e um caminho que parece não dar em lugar algum.

Eu quero acreditar em Deus, mesmo que isso me leve à conclusão de que estou perdido — porque, sem Ele, eu estou perdido também. Resta-me a finitude dos meus anos aqui nesta Terra, e eu quero mais do que isso. Meu dilema, à medida que o tempo passa, se torna cada vez mais doído e angustiante. Seria bom se Deus falasse comigo. O silêncio não tem ajudado.

É isso.

Ouvindo: O Messias

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