Linearidades Impossíveis
O dia que começou ensolarado terminou cinza e com uma leve chuva. Parece que queria me lembrar de que nada é linear na vida — por mais que eu gostaria demais que fosse. Nada segue um fluxo contínuo. Sempre existem interrupções, muros que me forçam a dar uma volta no caminho que vinha reto, chuvas que me fazem parar, lágrimas que rolam quando menos espero e até alguns sorrisos, ainda que raros.
Sorrisos, lágrimas, muros, retas, curvas. O caminho que eu percorro tem pedras e tem areia que o vento, quando mais forte, joga em meus olhos. Tem neblina que me impede de ver com clareza e me faz tomar decisões às vezes equivocadas, que me deixam à beira do precipício. E tem o Sol, que se me deixa ver com clareza, também é quase sempre escaldante e me faz suar.
Mas o que seria de mim se o caminho fosse feito apenas de linearidade? Conseguiria eu ser quem sou sem as adversidades que sofri? Sem as perdas que me fizeram conviver com a frustração, tendo-a quase como amiga? Não é exatamente isso que me faz saborear as pequenas vitórias e as boas surpresas com real encantamento? Se tudo fosse linear e fácil, quem eu realmente seria?
Não que haja virtude em sofrer ou mérito em frustrar-se, mas talvez seja, sim, preciso. A derrota só é realmente derrota quando desisto da luta; até lá, não passa de adversidades empilhadas que tento pôr de lado para prosseguir. Se hoje eu choro, amanhã preciso sorrir. E se estou sorrindo há dias consecutivos, talvez tenha que entender que não existe felicidade infindável — nem tristeza sem fim.
Se eu me rasgo e me remendo o tempo todo, o que fica, no final das contas, é a capacidade de regeneração que estes movimentos me trazem. Sem tempo para lamentar demasiado, entendo a vitória como o objetivo pelo qual tanto lutei para conseguir, mas sem nunca deixar que ela seja um fim em si mesma.
O meu triunfo não pode me deixar frouxo e nem o meu lamento pode me definir. Em busca desse equilíbrio, sigo entendendo que dias de chuva não duram mais do que os dias de Sol — e ambos me ensinam, me guiam e me fazem ser quem eu sou.
Por tudo isso, sigo na luta diária, na qual não posso baixar a cabeça por mais de cinco minutos, nem ter esse mesmo tempo de soberba com ela erguida. O meu viver e o meu proceder precisam ser equilibrados, por mais que "equilíbrio" seja uma palavra que não me defina — ao menos não como eu gostaria.
Enfim, sigo com todas as minhas contradições: com luzes, sombras, caindo, levantando, batendo, apanhando. Por vezes me esquivo dos problemas e, por outras, me entrego a eles de corpo e alma. Ousado, destemido, amando a quem me é caro e respeitando a todos. O meu pranto eu faço meu — e apenas meu — e o meu sorriso reservo a quase ninguém.
Do vazio que sinto, muitas vezes tento fazer um reservatório de esperança e, com ela em estoque alto, me lanço às batalhas. A vida, um dia, vai findar, e o que falarão de mim — se é que falarão algo — é o que definirá como serei lembrado ou se serei relegado à irrelevância.
A vida até aqui tem sido boa, mesmo com tantos reveses, porque me recuso a deixar que eles valham mais do que as conquistas. A vida que um dia se vai, até aqui, me faz sorrir sem um travo de amargura e me faz chorar sabendo que as lágrimas não são infindáveis.
Acho que isso já vale a pena.
É isso.
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