O Requiem das Inocentes
O que podem uma menina de três e outra de cinco anos contra um agressor homem de 24 anos? O que podem essas mesmas meninas contra alguém que planejou friamente matá-las apenas para atingir a mãe delas — que teve a infelicidade de concebê-las com esse agressor, esse ser horrendo e sem coração? O que poderiam essas duas meninas contra um mundo cada vez mais triste, mau e dominado por instintos cada vez piores que brotam dia a dia nas pessoas?
Elas não tiveram nem a oportunidade de saber o porquê morreram. Não houve negociação possível, não houve conversa prévia, apenas policiais encontrando seus corpinhos mortos por asfixia em um carro fétido — pois pertencia a alguém que, de tão animalesco e brutal, certamente exala um cheiro horrível de morte e destruição que nem o mais poderoso desinfetante pode remover.
A morte banal de duas crianças, assassinadas apenas porque um adulto descompensado assim resolveu, atinge primeiramente a mãe das duas garotinhas, que jamais verá novamente o sorriso inocente de ambas e nem receberá delas o abraço diário e os muitos beijos que vinham de seus lábios inocentes. Para esta mãe, o que fica é a dor, a aflição e o sentimento de culpa por ter entregue suas preciosidades a um ser que deveria protegê-las, e não levá-las à morte. A essa mãe, eu expresso todos os meus melhores sentimentos e choro com ela ao escrever sobre isso.
Choro com ela e me sinto tomado de uma fúria tão grande que me faz querer retribuir na mesma moeda o que esse monstro fez. Então eu me lembro que não posso querer vingança, e sim justiça. Mas me lembro também que no Brasil a justiça muitas vezes não funciona para mulheres pobres — mães que lutam para dar o melhor a seus filhos sem ajuda alguma do Estado — e repenso que talvez esse animal mereça, sim, morrer também.
Mas sei que não é questão de merecimento, e sim do que é correto. Não posso desejar ao agressor o mesmo que ele impingiu às vítimas. Posso desejar que ele tenha a maior pena prevista no código penal e que nunca mais veja a luz do dia fora das grades. Posso desejar também que ele sofra como a mãe dessas meninas, e que sua consciência emerja das trevas mais sombrias do seu ser para acusá-lo por todo o tempo de sua vida.
Sobretudo, eu posso desejar — e desejo fortemente — que Deus, em sua infinita grandeza, conforte o coração dessa mãe e conforte o coração de todos que amavam essas crianças, com todo o amor que elas certamente mereciam ter. Posso também desejar que, dentro do que for possível chamar de normalidade, a paz um dia a alcance. Por fim, posso orar por ela e por todos que amavam essas meninas, e isso eu farei.
A dor que me alcança como pai e como homem hoje é inenarrável, e eu mesmo peço a Deus que conforte o meu coração. E Deus, se o mundo precisar acabar, que acabe. Está tudo certo. Coisas tristes assim precisam ter um fim, precisam cessar. Seria possível, Deus, por favor?
É isso.
Ouvindo: Confutatus Maledictus.
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