Pausas na Praça
Hoje à tarde se fez bela. Da janela de onde olho, há uma praça com árvores frondosas, e o Sol está sobre elas, promovendo um contraste belíssimo entre o verde das folhas e o dourado de seus raios. Eu queria ser um poeta para poder dizer coisas realmente belas sobre a cena que capturei com meu olhar, mas o máximo que consigo é dizer que a tarde estava realmente bela.
Havia duas senhoras conversando no banco da praça, e me chamou a atenção a forma animada com que conversavam. Eu não conseguia ouvir nada, mas fiquei embevecido com o entusiasmo com o qual elas gesticulavam, sorriam e até se abraçavam no meio da conversa. Eu queria ter um amigo para conversar assim, para contar minhas agruras sem medo e receber um abraço; para ouvir as dele e abraçá-lo. A gente descobriria junto que um abraço, se não muda o mundo, muda o humor de alguém, tornando a pessoa mais feliz, ao menos pelo tempo em que ele dura.
Os carros cruzavam o semáforo apressados, a fim de conseguir atravessar com a luz verde acesa. Pobres carros e mais pobres ainda os seus condutores. Se olhassem para o lado, veriam o contraste do dourado com o verde e talvez a corrida da vida desse lugar a uma pausa, a um suspiro embalado em pura contemplação e felicidade. Dei-me conta de que me falta contemplar o mundo em busca do que ainda é belo, e percebi algo ainda mais importante: o belo ainda existe e está a um olhar de distância.
Olhei para além da praça e vi, na estação de metrô, pessoas que afluíam para a entrada com pressa, quase correndo, todas aparentemente atrasadas para algum compromisso inadiável. Mas não seria ou deveria ser inadiável para nós o viver? Será que vivemos em meio a esse caos, a essa bagunça que fingimos organizar dando a nós mesmos um verniz de homens e mulheres apressados demais, com demandas demais que só nós podemos resolver? Será?
Somos ocupados até uma avalanche de lama ceifar-nos a vida quando menos esperamos. Pessoas tragadas para a morte sem nem saber o que as atingiu. Será que elas conseguiram olhar para as árvores e ver o contraste do verde com o dourado da luz do sol? Será que lá no Nepal amigas se abraçaram pela última vez antes de morrer? Não seria lindo se, entre tantas tragédias e dores, morressem abraçadas as amigas de tantos e tantos anos?
De que nos vale a vida se não a vivemos? O sol, que teima em nascer aqui após se pôr no Japão em um ritual sem descanso, de beleza e magia, deveria continuar a fazê-lo se ninguém se importa? Não deveriam as ruas estar mais vazias e as casas mais cheias de casais dançando a valsinha que cantaram Nelson Gonçalves e Chico Buarque?
Eu não quero chorar de tristeza, e sim de alegria. Eu quero dançar com minha mulher, porque a vida é urgente o tempo todo e às vezes precisa ser lenta e bela. Eu quero ver as cores que o mundo tem antes que eu não consiga ver nada além de trevas. Eu quero um amigo para abraçar como as duas senhoras que me comoveram hoje na praça, onde o sol resplandecia nas árvores frondosas.
Eu queria saber escrever coisas bonitas. Só sei escrever isso aqui mesmo. Me desculpem.
É isso.
(Ouvindo: Valsinha)
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