Trinta Por Cento de Mim: O Abismo Entre o Pensamento e a Caneta

Eu jamais vou escrever como Mary Shelley, Virginia Woolf ou Jane Austen — a trinca de escritoras que mudou para sempre a minha percepção sobre o que é literatura de verdade. Eu sou, na verdade, apenas um corretor de imóveis com aspirações literárias que às vezes me parecem bobas, sem o embasamento ou a capacidade que elas tinham de colocar no papel, de forma tão precisa e elegante, o que pensavam. Se algo me falta, com toda a certeza, é a fluidez elegante da escrita dessas inglesas fantásticas.

A mim, parece restar apenas uma escrita confusa e pouco inspirada. O tormento de ver que não consigo colocar no texto 30% do que realmente desejo — seja por falta de vocabulário, seja por incapacidade de transformar pensamentos em ideias concretas. Talvez o mundo ficasse melhor sendo privado das bobagens que gostaria de escrever. Mas eu gostaria, apenas uma vez que fosse, de olhar para um texto meu e sentir que tudo o que eu queria dizer foi dito — e que nada mais falta.

A minha escrita marginal, impotente para traduzir a minha imaginação, me deixa triste. No meu mundo ideal, ela seria a tradução exata das minhas ideias e desejos; tornaria fácil a compreensão de quem sou e do porquê escrevo. Mas tudo o que consigo, quase sempre, é dar voltas e mais voltas em torno do nada — em torno de mim mesmo.

Quando vejo um dia como o de hoje, com o sol brilhando e uma árvore frondosa ao fundo — como vejo exatamente neste momento —, tudo o que consigo é dizer o óbvio: que o sol brilha e que a árvore é frondosa. Falta-me a poesia para encantar o leitor, para explicar que esse sol vai muito além do literal, e que essa árvore carrega simbolismos tão meus, mas que eu gostaria que fossem do leitor também.

Quando leio a obra-prima de Mary, vislumbro a alma por trás daqueles pedaços de corpos costurados. Quando leio sobre o Sr. Darcy, consigo olhar pela lente de sua amada e entender a riqueza de seu caráter, descrita em palavras que, além de belas, são vívidas. Virginia, quando escreve, me leva para onde quiser, sempre tão exata em suas colocações. A mim, sobra a confusão de palavras que sempre poderiam ser substituídas por termos melhores, que deixariam o texto mais belo e fluido.

Minha dúvida oscila entre contentar-me com o que consigo produzir ou simplesmente parar de escrever por falta de qualidade. Quando tento ficar sem escrever, sinto-me mal. Mas, quando escrevo, na maioria das vezes sinto-me pior. Se ao menos uma vez algo genuinamente bom saísse dos meus escritos, eu poderia morrer em paz. Mas temo que, se depender disso, estou fadado a uma eterna frustração, pois sinto que não consigo escrever nada que preste.

É isso.

Ouvindo: O som e a fúria do movimento Primavera de "As Quatro Estações".

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