Carta a Theodore no Trem das Oito
Quando pela manhã o trem se põe a rodar sobre os trilhos, levando tantas e tantas pessoas — todas com seus tantos e tantos pensamentos, anseios, ilusões, desilusões, esperanças e também suas desesperanças —, quando este trem, que carrega mais gente por vez do que deveria (pois ninguém pode esperar pelo próximo devido aos atrasos de sempre), me carrega também com ele em uma de suas viagens.
E eu levo minhas esperanças, desesperanças, ilusões e desilusões, e me vejo só em meio a uma multidão onde a grande maioria também se vê só. É possível uma solidão coletiva? É possível sentir-se abandonado em meio à multidão? Vejo escorrer meus sonhos pelo chão sujo do trem e sei que, embora eu os sonhe todos os dias, eles nunca se farão reais. Sonhos não cabem na vida ordinária de quem pega trem todos os dias em busca de sobreviver. Sonhos são para os realmente afortunados, que podem realizá-los com um clique — mais rápido do que o trem demora para ir de Osasco a Pinheiros. Sonhos não me pertencem.
E sonhos não pertencem a quem vive a dura realidade do vai e vem solitário que se compartilha com tantas outras pessoas. É triste que nem a minha solidão possa ser sorvida a sós; há sempre acompanhantes mil que tomam, eles mesmos, o seu trago de solidão. Bem fazia o personagem de Joaquin Phoenix em HER, que tinha sua própria I.A. para lhe acompanhar por todos os lados. Ah, Theodore, como você era afortunado! Até que ela partiu. E ela partiu, Theodore, porque pessoas como eu e você não têm o direito de pleitear companhia — pois quando a temos, não sabemos mantê-la ao nosso lado.
Somos nós, e sempre fomos nós, meu caro Theo. Foi com toda a nossa implicância com o mundo e com nosso completo desprezo pelas regras de convívio social que nos isolamos, embora hoje todos estejam irremediavelmente sós, Theo. Bem aqui ao meu lado, neste trem lotado de pessoas que olham para o vazio, pois não podem olhar para o outro sem um travo de desesperança — e ninguém, ninguém mesmo quer se mostrar desesperançado.
Corremos atrás de dinheiro, de carros, de status, de telefones bonitos e potentes (aceitamos, sim, que sejam mais bonitos do que potentes), de relacionamentos líquidos para fingirmos que são sólidos. Corremos atrás do que não precisamos e deixamos o que realmente importa em segundo ou terceiro plano, apenas porque cuidar do que nos importa dá um trabalho de que hoje abdicamos. Afinal, tudo tem que vir mastigado e pronto. Falamos com pessoas por aplicativos de mensagem porque cada vez mais temos medo de encontros reais, que podem desencadear conversas verdadeiramente perturbadoras por serem importantes — verdadeiramente importantes.
Sabe a grande realidade da vida atual, Theodore? Ela foi sendo formatada pouco a pouco para nos esmagar sob o peso de nossas derrotas e de nossos anseios, despertados pela vontade de ter e ser coisas e pessoas que jamais poderemos ter e ser. Pois o bom da vida — ao menos como ela aparenta ser — está destinado aos muito ricos ou aos bajuladores desses muito ricos. Pessoas que todos os dias pegam o trem para viver sua solidão coletiva com tantos e tantos outros ficam com as batatas; e, às vezes, nem sequer podem prepará-las da forma que mais gostam de comê-las.
É isso.
Ouvindo: Sinal Fechado — Paulinho da Viola
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