Na Falta das Lágrimas, Escrevo
Se eu soubesse e conseguisse chorar, hoje seria um dia para derrubar uma cachoeira de lágrimas. Mas eu não sei — ou melhor, desaprendi. Eu choro por um filme que me estimula com uma história emocionante ou porque me contaram algo sobre alguém, mas não consigo chorar pelas minhas próprias questões. E eu queria. Hoje, eu queria chorar.
Queria chorar porque me dei conta de que o tempo anda passando cada vez mais rápido e, inversamente, consigo fazer cada vez menos as coisas que gostaria. Queria chorar por não ter um carro no momento — não porque precise dele para minha afirmação pessoal, mas porque ajudaria demais nas pequenas tarefas do dia a dia. Gostaria de chorar porque já faz algum tempo que não vendo, e, quando não vendo, as coisas apertam financeiramente.
Chorar porque não soube aproveitar o que a vida me ofertou em tempos passados e porque não tive coragem suficiente para fazer coisas que deveria ter feito e que teriam mudado o rumo da minha história. Chorar porque não gostam de mim. Logo eu, que sempre disse não me importar com o fato de não ser querido, me descubro cada vez mais carente de aprovação e afeto. Não os tenho. E queria prantear por este motivo.
Sinto-me ingrato ao duvidar de Deus e de sua existência; afinal, ele teoricamente me deu a vida. Essa vida que desperdicei em grande parte com meu egoísmo e ideias autocentradas. Busco ser grato às pessoas, sempre, mas, se Deus existe, estou sendo desleal e mau por duvidar de que ele esteja aqui, agora, olhando por mim e designando anjos para me proteger.
Eu quero chorar porque minha irmã Fernanda morreu tão cedo e deixou uma lacuna no meu coração que nada é capaz de suprir. Fecho os olhos e vejo seus cabelos, lindos trigais ao vento, e o seu sorriso que nunca mais verei. Eu queria chorar.
Chorar porque sei que jamais saberei quem é meu pai. É um espinho na minha carne que vai me acompanhar até o dia da minha morte. Sinto que sou tão desprezível que o homem que me gerou não quis nem ao menos pousar seus olhos sobre mim no momento em que nasci, nem enquanto cresci, nem nunca. Quando penso nisso, queria desabar de chorar.
Sinto falta de minha mãe, a figura mais inteligente que já conheci na vida. Ela se foi e nunca mais poderei falar com ela. Não tenho muitas pessoas com quem conversar, porque as pessoas acham minhas conversas loucas demais. Talvez sejam. Carrego uma dor no peito mesmo quando estou feliz; ela me lembra que a felicidade plena não é para mim.
Eu não sei chorar e, então, escrevo. E aí percebo que não sei escrever. Não sei fazer nada do que gostaria e não sei o que me resta. Então eu sigo, porque minha sina é seguir.
É isso.
Ouvindo: Ave Maria, com Sarah Brightman. Por algum motivo que não entendo, essa música me conforta.
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