O Chá, o Silêncio e as Mal Traçadas Linha
Para que serve a escrita, o que eu escrevo, se não para ser lido? E se o que eu escrevo não atinge as pessoas que leem, ou se elas não entendem, ou se não gostam, do que adianta a escrita e a leitura?
Se não gostam, é minha culpa? Se não entendem, não fui claro o suficiente? Não mirei um público específico? Deveria ter mirado? Se escrevo e não obtenho relevância, perdi o meu tempo, afinal?
Mas como mensurar a relevância da minha escrita? Pelo número de pessoas que leem? Será este um bom parâmetro? Afinal, o número de leitores é mais importante do que o número de pessoas efetivamente tocadas pelo conteúdo? Se uma pessoa leu e para ela foi emocionante, ou divertido, ou seja qual for a emoção que se despertou, não é melhor do que milhares de leitores indiferentes, ou que não acompanharam o raciocínio de minhas linhas?
Todos os que leram Virginia Woolf acompanharam seu fluxo de pensamento? Os apaixonados e apaixonadas, românticos confessos que amam a escrita de Jane Austen, quantos deles foram além do romance e alcançaram a crítica social e de costumes contida em seus livros? Frankenstein é muito mais do que o terror gótico consagrado: ele fala da alma humana, de seus descaminhos, de suas incertezas e medos mais latentes. Quantos perceberam?
Foram essas autoras agraciadas com a venda massiva de suas obras, e eu tenho um punhado de leitores a cada texto. Sou menos competente do que elas? Decerto sim. Merecia ter mais leitores? Não sei dizer, mas sei que anseio por ter uma legião de pessoas a ler minhas mal traçadas linhas, embora, ao mesmo tempo, eu renegue aqueles que não entendem o que quero dizer a cada post.
Vivo essa dualidade: querer ser lido, mas querer, muito mais, ser compreendido. E aí percebo que a compreensão não está na massa, mas nos abnegados que sorvem as palavras que lhes passam ante os olhos ávidos por entender o que o criador do texto quis, de fato, dizer.
E essas pessoas leem. Novamente elas leem, e tiram tempo para refletir, para amar a palavra escrita que é tão vilipendiada nos dias de hoje, onde tudo é imagem e sons acelerados na velocidade 1,5x.
A leitura requer café ou chá ao lado, requer silêncio, calma e paz. Requer uma imersão que hoje o mundo não permite que se tenha. A leitura precisa ser amada como se ama uma bela mulher a quem se deseja descobrir os segredos.
Eu não sei escrever, admito, mas tento. E, em minhas tentativas, às vezes me emociono com meu resultado. Quando tenho — raras vezes — o retorno positivo de quem leu o que quer que seja, esse retorno me faz entender que vale a pena escrever, ainda que pareça que não.
E então, eu prossigo dando vazão a esta necessidade que tenho de escrever, de colocar para fora pensamentos meus que, de tão meus, pouco têm de correspondência com o mundo ao meu redor, mas tocam aqui e ali pessoas que os leem. E esse aqui e ali acaba valendo a pena. E como vale.
É isso.
(Ouvindo: Yo-Yo Ma)
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