O Cobertor Curto das Minhas Certezas

 

Quando eu cansei de mim, cansei de ver a minha imagem refletida no espelho. Percebi que era uma imagem que há 53 anos passa por tantas mudanças físicas e emocionais que certamente cansariam a qualquer pessoa — e que eu estava cansado de me ver. Mas percebi que, mais cansado do que ver minha aparência em constante mutação, eu estava cansado de ver o que só eu podia ver: quem sou por dentro.

Percebi que os mais altos padrões que quis alcançar nunca foram sequer roçados, pois sempre chafurdei no lamaçal do comum, do ordinário. Todo o extraordinário que imaginei para mim não consegui sequer vislumbrar. E, quando finalmente cansei de mim, me dei conta de que, entre o virtuosismo e a fraude, eu sempre fui a fraude.

E a fraude é facilmente verificável; só não percebe isso o fraudador que vive a ilusão de que a todos engana — e acaba conseguindo enganar apenas a si mesmo, e por um breve tempo. Pois, caindo em si, ele logo vê que todos em volta já estavam cansados bem antes de ele mesmo se cansar. Então, toda a fraude dá lugar à verdade avassaladora que se impõe de forma decisiva e definitiva.

Porém, quando cansei de mim mesmo, percebi que a verdade era um cobertor curto que cobria meus pés e descobria a minha cabeça, ou me cobria e aquecia o crânio e deixava os pés gelados na madrugada. E eu, que vivo em uma quase eterna madrugada, vivi a maior parte da minha vida tentando aquecer uma parte de mim tendo outra parte gelada, a ponto de fazer gelado o meu coração. Na verdade, como não me cansaria de mim mesmo se sou como o anticiclone de Júpiter, que há mais de 190 anos causa uma tempestade incessante no planeta?

Depois de me cansar de mim mesmo, eu sentei e chorei. Chorei por meus arrependimentos, por minhas desilusões e pelas desilusões que causei; pelas mágoas que impingi a tantas pessoas. Percebi que o copo de veneno que nunca tomei sempre esteve ao alcance da mão, e eu diversas vezes o ofereci a outros sem nem me dar conta do que fazia.

Eu cansei de mim porque conviver com quem não gosta de chuva e nem gosta de sol é um tormento, e as pessoas aos poucos foram se afastando sem olhar para trás. E eu não posso me privar da minha própria companhia: sou um prisioneiro de mim mesmo enquanto a vida durar.

Eu cansei de mim mesmo porque no meu autoexílio existe solidão e medo do futuro; existe desesperança e existe uma amargura em plena ebulição. Eu posso suportar o silêncio dentro de mim, eu posso suportar a solidão, mas não posso suportar a amargura, o olhar que venho desenvolvendo para o mundo, de acomodação e indiferença. O instinto violento que carrego, a raiva surda do mundo, a falta de conexão com pessoas... tudo isso me fez cansar de mim. A dor de ser só, amargo e desesperançado faz o mundo ser cinza e sem graça, assim como eu sou sem graça.

Eu olhei no espelho e me percebi cansado de mim mesmo. E agora?

É isso.

Ouvindo: Réquiem

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