O Eterno Vice-Campeão de Mim Mesmo
Lembro-me de uma história engraçada — ou trágica, dependendo de quem vê e interpreta. Eu era corretor na Lopes, a maior imobiliária da América Latina. Fui corretor por pouco tempo, pois minha consistência em vendas sempre me levava à coordenação de algum produto. Mas houve um mês em especial que me marcou.
Tínhamos uma festa trimestral para que os corretores melhores ranqueados subissem ao pódio e recebessem troféus e medalhas. Foi impressionante: no mês em que vendi mais do que o triplo do terceiro colocado — e mais do que o triplo dos primeiros colocados dos outros dois meses do trimestre —, um outro corretor resolveu vender 100 mil a mais do que eu. Aquilo já era um absurdo de produção, mas me deixou com o troféu de segundo lugar. Ele nunca mais recebeu uma medalha, um troféu ou qualquer coisa que mostrasse competência e consistência. Foi só aquele mês. O suficiente para tirar de mim o primeiro lugar na maior imobiliária do país.
Eu sempre fui o segundo. Em tudo o que vivi, fui o segundo.
Eu jogava no gol. Não porque não quisesse ser o centroavante, mas porque não tinha habilidade para ser o homem do gol. Resignado, ia para a trave. Já no vôlei, eu tinha uma habilidade absurda. Poderia ter sido profissional, isso é um fato. No vôlei, eu era sempre o primeiro escolhido. Até que os meninos que jogavam comigo cresceram — e eu não. Parei de ser chamado. Anos depois, já adulto, a vida me lembrou que nasci para ser o segundo quando inventaram a posição de líbero, onde ter a minha estatura finalmente passou a ser uma vantagem.
Na igreja que eu frequentava, havia um campeonato de conhecimento sobre o livro do ano. Chamava-se "Quem Sabe, Prova". Por quatro anos fui o segundo colocado. A prova era em equipe e, apesar de eu responder a todas as minhas questões, sempre havia alguém para derrubar a média e me jogar para a segunda posição.
Em tudo o que vivi, sempre fui o segundo.
Eu queria, ao menos uma vez, ser o primeiro. Uma única vez. Saborear o lugar mais alto do pódio, descobrir como é ter todos os olhares em cima de você, todos os elogios, todas as loas. Como segundo colocado, sempre recebi um aperto de mão. Aos vencedores, porém, são reservados os abraços. Eu só queria, uma vez, sentir o abraço destinado ao campeão. Deve ser muito bom.
Tenho tantos textos que gostaria de publicar, de jogar para o mundo, mas tenho medo. Muito medo de não ser efetivamente bom; de serem histórias e crônicas de segunda linha, pelas quais ninguém vai se interessar e que, se lerem, será com enfado e pressa para que acabe logo.
Havia um garoto que queria ser visto e reconhecido, mas era invisível. O garoto se esforçava, mas ninguém o via. Um dia, ele se deu conta de que tinha crescido — e ninguém, absolutamente ninguém, o via mesmo depois de grande. Ele caminhava como um fantasma por entre as pessoas e falava com elas sem sequer ser verdadeiramente ouvido. Não era visto, não era ouvido e ninguém falava dele, posto que não o percebiam.
Havia um garoto. O garoto se tornou homem, o homem se tornou velho e o velho, que sou eu, tornou-se alguém que sabe que será para sempre invisível e solitário. E que chorar não adianta. Então não choro, não lamento. Resigno-me com a invisibilidade a mim imputada pelo mundo e penso que, se garoto voltasse a ser, tentaria ser visto. Como? Eu não sei, e nem o garoto saberia me dizer.
Logo o fim desse garoto — que virou homem, que virou velho e que sou eu — irá chegar. E será tão irrelevante quanto sua vida e seus textos. Eu queria ser lido, ouvido, admirado. Sou só ignorado. Triste fim. Ou quase fim.
É isso
Ouvindo: El Inviento a sublime canção de José Gonzaez
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