O Inferno São os Bonzinhos: Por Que 'Emergência 53' é um Tiro no Queixo da Hipocrisia
A série fala sobre um grupo de gente transgressora e desajustada que compõe uma unidade do SMU, serviço de paramédicos que, na vida real, salva vidas por sua eficaz e rápida intervenção em acidentes, casos de violência doméstica ou mesmo males súbitos de pessoas que chegam até eles através do telefone 193. Talvez salvar vidas seja a única coisa que presta (e é uma coisa enorme, diga-se de passagem) que esse pessoal sabe fazer; de resto, dá para sentir piedade de suas desventuras pessoais — e é isso que faz a série ser tão incrível.
O mosaico é composto por um médico maniaco-depressivo; uma enfermeira que quer ser médica, mas é pouco mais que uma vassala do maníaco e, no decorrer dos episódios, se liberta e o liberta; outra enfermeira chegada em pó, no melhor estilo "pobre menina rica"; outro enfermeiro que tem uma luta interna que o faz crer em Deus e tentar segui-Lo e, ao mesmo tempo, ter uma quedinha por Satanás; um condutor de ambulância com um pai traficante que vive lhe azucrinando a vida; e uma condutora e mecânica que faz uma grana extra em sites adultos. Para arrematar, outra médica que se descobre quase ninfomaníaca, pegando geral, e a chefe da unidade: uma médica comunista daquelas "de boutique", que tem consciência de classe, mas não dispensa um jatinho para Paris se tiver oportunidade.
Com essa fauna, a série funciona por triunfar onde a maioria das produções brasileiras fracassa: tem roteiros amarrados, enxutos, ágeis e que resolvem sem muita enrolação os temas propostos. Uma direção segura, sem grandes arroubos, finaliza o produto de forma marcante e elegante.
Mas o que fica para mim desta primeira temporada é o reforço da minha crença — baseada na observação humana — de que gente boazinha não serve para nada. Para ser bom, realmente bom, você não precisa ser legal, e sim íntegro em seus propósitos e em suas ações. Gente boazinha, além de ser um pé no saco, na primeira oportunidade se revela pior que as hostes satânicas e te fode com um sorriso nos lábios. Os bonzinhos são a praga que assola a humanidade e a faz definhar em um mar de falsidade e hipocrisia. Os bons muitas vezes tomam atitudes mal vistas porque não perdem tempo explicando seus atos: eles vão lá e resolvem.
Emergência 53 mostra que gente boa é uma coisa, e gente boazinha normalmente é o inferno na Terra. Eu, ao menos, dispenso gente boazinha e fico com os bons e seus dilemas, erros e contradições. Para finalizar, menção honrosa à recepcionista da unidade, obcecada por sexo e que só toma toco; ao pastor que tenta mostrar ao simpatizante do Cão que vale mais estar com Deus; e, sobretudo, a Fernanda Montenegro, que faz a mãe da médica comuna-chique.
Que série. Espero que haja uma segunda temporada. Se fosse gringa, seria aclamada e ganharia vários Emmys. Third Watch passa vergonha.
É isso.
Ouvindo: Eminem
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