Pesqueira, Whitney e El Invento
Sinto saudades de Nenzinha. Sinto saudades até do que não vivemos, mas sobretudo das pequenas e saborosas histórias que partilhamos, dos momentos em que superamos diferenças e estreitamos similaridades. Momentos que não voltam e nem podem ser repetidos porque ela se foi. Se foi deste mundo, mas vive em mim, em minhas lembranças.
Nenzinha é o apelido carinhoso que minha mãe, dona Alexandrina, tinha na família. Ela chamava seu próprio nome de "escalafobético" e dizia que nordestinos têm o pendor para nomes assim. Sendo ela pernambucana de Pesqueira, sabia do que estava falando. Dizia que escolheu meu nome — que na verdade seria Dario (olha do que me livrei) — pensando em algo fácil, sonoro e belo. Acertou em cheio. Na verdade, Nenzinha acertou em muitas coisas, pois era uma pessoa de inteligência rara, aberta para o mundo, para a vida, sempre à frente do seu tempo.
Nenzinha teve três filhos: minhas duas irmãs que se foram e eu. Eram três filhos de três pais diferentes e quem quiser que a julgue. Não me importo, pois sei quem ela era — e ela mesma não se importaria com o julgamento de quem quer que seja, pois todos erramos e não deveríamos, em tese, julgar ninguém. A beleza da existência de Nenzinha se baseava em sua resiliência para com a vida que levava e nas contradições de sua personalidade.
Em uma das últimas vezes em que nos falamos, por chamada de vídeo, ela cantou para mim I Wanna Run To You, música da minha diva máxima, Whitney Houston. Nenzinha era uma contralto bem mais que simplesmente competente: era afinada e tinha um timbre belíssimo. Naquele dia, cantou em um inglês de pronúncia perfeita, como se fosse uma mezzo-soprano, e se emocionou. Puxei de minha mãe uma timidez insuspeita, mas, quando à vontade, ela se soltava. Já estava com câncer, mas cantou lindamente — e suspeito que tenha cantado pensando em alguém. Foi lindo!
Lembro-me bem de ter sido alfabetizado por minha mãe aos 4 anos, algo que suspeito ser muito difícil, mas que para ela foi natural. Eu saía lendo tudo o que via pela frente e queria mostrar meu conhecimento. Uma vez, creio que aos 6 anos, quis exibir minhas descobertas e disse para alguns parentes reunidos que o último país do mundo era a faixa equatorial — algo que, além de imaginário, nem país é. Nenzinha avaliou a audiência, viu que eram pessoas iletradas e bancou minha fala absurda. Depois, indo para casa, me explicou que o mundo é redondo e não existe um "último planeta", mas que, se eu quisesse falar algo assim, deveria dizer que na Patagônia existe uma cidade que se proclama como a última do mundo. Nunca mais esqueci.
Ela me deu a coleção completa da série Vaga-Lume de livros infantojuvenis. Deu-me também a coleção Para Gostar de Ler, onde tive meu primeiro encontro com Drummond, Rubem Braga e tantos outros. Ela me ensinou a gostar e a dançar as canções dos Secos & Molhados e, mesmo sendo enfermeira formada, fazia bicos de faxineira nas casas de médicas com quem trabalhava para complementar a renda. Nenzinha era correria.
Quando Fernanda, minha irmã mais nova, morreu — e alguns parentes me culparam porque peguei meningite, sobrevivi e eles insistiam que eu passei a doença para ela —, minha mãe se tornou alcoólatra. O baque da morte de Fernanda foi demais para ela. Foi para mim também, mas eu me tornei ainda mais introspectivo do que já era e passei a ter medo de chegar a lugares diferentes (e por "diferentes" entenda-se qualquer lugar com pessoas desconhecidas). Ainda hoje tenho esse medo.
Nenzinha nunca se recuperou da morte de Fernanda. Por anos, entendi que ela gostava mais dela do que de mim, mas, quando me tornei pai, entendi finalmente a sua dor. Perder um filho, ainda que se tenha três, não é natural e não faz sentido. Mas tenho, mesmo assim, um enorme orgulho da mãe que tive e que tanto me ensinou. E ela sempre ensinava com graça e delicadeza. Lembro-me de quando me ensinou a amarrar os sapatos, de quando me ensinou a comer de garfo e faca e de quando me ensinou a pegar ônibus para ir trabalhar.
Fiquei dias cantarolando I Wanna Run To You. Acho que faz uma semana que a música não sai da minha cabeça e hoje me lembrei do porquê. E então eu sorri. Em seguida, ao ver uma foto da minha filha, Rafaela, vi um pouco de Nenzinha. Não pela aparência, pois Rafaela é a cara da mãe, mas porque minha filha é libertária, faz suas próprias escolhas, e reconheço o olhar de Nenzinha no olhar dela. Quando eu perguntava sobre meu pai, que não conheci, Nenzinha me respondia que quem perdeu foi ele, e não eu.
Hoje, ela se foi e ficou a tristeza, mas também ficaram as lembranças dos bons momentos que partilhamos, a memória de sua inteligência e sabedoria, e a certeza de que eu não escolheria outra pessoa para ser minha mãe.
Sinto sua falta quando vejo filmes que sei que ela gostaria, como A Forma da Água, mas sobretudo queria que ela estivesse aqui ao meu lado para ouvirmos juntos El Invento, de José González. Sei que ouviríamos em silêncio e voltaríamos a música uma, duas, dez vezes.
Por fim, não existe definição melhor de Nenzinha do que dizer que ela era uma alma curiosa, singular. Complexa em sua calma e tempestade.
É isso.
Ouvindo: El Invento
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