Rocket Man e o Muro
Às vezes é preciso bater no muro em alta velocidade para, em caso de sobrevivência, recomeçar. Uma desaceleração brusca, ainda que não intencional, talvez coloque as coisas, pessoas e situações na perspectiva correta — se é que ainda restará algo depois da batida. Pode ser uma queda também; um tombo em um buraco quase abissal que, se resultar no milagre da sobrevivência, mude tudo ao redor.
Quando se está correndo, a paisagem fica turva pela janela. Tudo passa tão rápido que os detalhes deixam de existir. A sensação de liberdade que a velocidade causa — ainda que uma velocidade figurada — é inebriante, enche o corpo de adrenalina e faz com que nada mais importe além de acelerar cada vez mais e perceber cada vez menos.
A vida pede simplicidade e ritmo reduzido, mas, para algumas pessoas, essa lentidão não justifica o estar vivo. Esperar que as coisas aconteçam pode ser mortificante; tomar as rédeas da situação torna-se um imperativo em qualquer aspecto da existência, ainda que todo controle seja ilusório. A vida escorre pelos dedos dia a dia, sem que ao menos se perceba.
Bater no muro ou cair no abismo obriga a olhar em volta e encarar o fato de que viver acelerando é um propósito inalcançável. Um dia, correr cansa. Seja a pé, seja ao volante, o cansaço chega. Talvez a desaceleração venha tarde demais, quando já não houver tempo para aproveitar as belezas e sutilezas, ou quando já não restar disposição para apreciar o que existe de formoso ao nosso redor.
O impacto também evidencia os erros internos que passam batidos pela falta de autoobservação. Não dá para olhar para si mesmo focado apenas na correria. Os erros vão se acumulando e, em algum momento, cobram o seu preço.
Eu sei de tudo isso porque eu corro. E, por correr tanto, não vejo e não escuto nada. Eu só quero correr e descobrir onde a estrada acaba e o que existe depois dela. Elton John cantou e ainda canta Rocket Man, e sei que eu gostaria de ter um foguete para voar cada vez mais rápido e para mais longe. Ao contrário de Major Tom, porém, eu nem me daria ao trabalho de responder à torre de controle para dizer que o nosso planeta é azul. Detalhes como a cor de planetas minúsculos não me interessam. Só quero saber do meu Ad Astra: ver cada vez mais estrelas, cada vez mais rápido, até me esborrachar em uma delas e virar poeira cósmica.
Se eu bater no muro, se eu cair no abismo, a minha história vai acabar. Não sei contemplar, só sei correr. Quero ser o Rocket Man, virar poeira e, no final de tudo, sei que nem notado serei. Não fui destinado a grandes coisas, então eu corro.
No fundo, corro de mim mesmo.
Ouvindo: Rocket Man
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