Três Professoras e Quatro Livros no Córrego
Eu me lembro bem de três professoras que tive: Mílvia, Eliana e Sofia. Tão diferentes entre si e tão marcantes na forma como agiam comigo e com a classe como um todo. Claro que me lembro muito mais da forma como elas me tratavam, deixando o restante da turma em segundo plano. Mílvia, Eliana e Sofia deixaram marcas profundas em mim, e agora detalho o porquê.
Mílvia foi minha professora no segundo ano primário e sempre me incentivou a ler e a escrever. Não eram simples incentivos verbais, algo que se diz para qualquer aluno. Mílvia me dava livros de presente e tirava um tempinho depois das aulas para fazer o que hoje sei que eram laboratórios de redação comigo. Todo dia me sugeria um tema para que eu desenvolvesse e, aos 7 anos (entrei na escola com 6), me dizia que eu escrevia melhor do que os meninos de 12 ou 13. Não sei se era verdade, mas os elogios que ela me fazia — esse em especial — me enchiam de orgulho. A cada novo tema proposto, eu tentava superar a escrita anterior. Eu não podia desapontá-la com textos ruins, e creio que nunca a desapontei. Mílvia se tornou inesquecível. Até hoje, nestas mal traçadas linhas que cometo neste blog, há muito, mas muito do incentivo da minha querida professora Mílvia. Ela me ensinou que o afeto ensina tanto quanto o giz e o quadro-negro.
Eliana era o oposto. Por algum motivo que jamais saberei, me detestava e deixava isso claro. Uma professora que odeia um aluno, seja pelo motivo que for, não deveria jamais exercer a profissão. Mas Eliana me perseguia. Na terceira série, o ano em que ela me deu aula foi um misto de pavor e raiva. Quando entrava em sala, já tinha pronta a reclamação direcionada a mim: podia ser o uniforme, a forma como eu estava sentado, eu falando demais, eu falando de menos, ou a minha letra, sempre horrível aos olhos dela.
Lembro que tivemos um concurso de leitura e o livro escolhido foi Soprinho. Foram escolhidos dois representantes da minha classe para ler os trechos selecionados: eu, porque nem ela podia negar minha fluência na leitura, e o Marcelinho, o queridinho dela, que lia bem também, mas não como eu. Eliana foi descaradamente má-caráter. Entregou para o Marcelinho os trechos a serem lidos uma semana antes; para mim, entregou na manhã do concurso. Eu estava na terceira série e concorria com alunos da quinta e da sexta. O prêmio era uma coleção incrível para quem gostava de literatura: todos os livros editados até ali da série Para Gostar de Ler. A coleção tinha vários livros e eu os queria desesperadamente.
Coloquei o queridinho de Eliana no bolso, pois o júri era composto por seis professoras. Minha nota foi 58, porque Eliana, é claro, me deu 8, enquanto todas as outras me deram 10. Marcelinho ficou em segundo, com nota 55. Sabem o que ela fez? Roubou — pois não tem outro nome. Ela roubou dois livros da coleção e deu para o Marcelinho. A nota baixa dada pela minha própria professora e a perda dos dois livros me fizeram sair da escola e jogar os outros quatro livros no córrego no caminho para casa. Depois de adulto, comprei a coleção completa em um sebo. Eliana me ensinou que nem sempre os melhores vencem, ainda que cheguem em primeiro. Foi a primeira vez em que fui o segundo no que vivi.
Sofia era uma japonesa de no máximo 1,50 m que me ensinou na quinta série — meu último ano de educação formal, que nem cheguei a completar — a sequência Me, Ve, Te, Ma, Ju, Sa, U, Ne, Plu. O Plu (Plutão) estava ali porque, na época, ainda era considerado planeta, não havia sido rebaixado. A sequência se referia aos até então nove planetas do Sistema Solar. Sofia só falava gritando comigo porque me achava desatento. Eu reagia gritando com ela, jogando coisas nela, e ela me devolvia jogando o apagador. Sim, naquela época as professoras podiam ser meio malucas e, ainda assim, eram respeitadas. Hoje ela seria assassinada por alunos violentos e enlouquecidos; eu só chorava mesmo. Sofia me ensinou que gritar nunca funciona — embora eu grite pra caramba até hoje.
Três professoras, três formas de ver a vida e de ensinar a viver. Mílvia levo no coração. Eliana, espero que quando morrer — se não morreu ainda — vá queimar direto no inferno. E Sofia... bom, Sofia não sei se considero uma anedota de mau gosto ou alguém que achava que me fazia o bem quando me fazia o mal. A ela, dou o benefício da dúvida, mas às vezes dou risada das nossas guerras de objetos. Que o tempo tenha lhe sido gentil, como ela nunca conseguiu ser comigo.
É isso.
(Ouvindo: The Wall – Pink Floyd)
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