A Caixa Craniana Desincha


É como se fosse um rio represado que por dias e dias não pôde seguir seu curso e cujas águas acumuladas fossem tomadas pela fúria com que a natureza, vez ou outra, reveste os seus elementos. Então, esse rio caudaloso, parado por alguma força externa, rompe com tudo o que está à sua volta para poder finalmente seguir seu caminho. Ele não pede licença: ele vai e destrói o que até há pouco o segurava, e, na sua sanha de prosseguir, derrubará o que mais vier pela frente.

Assim sou eu com a minha necessidade de escrita. Se fico muito tempo sem escrever, sinto a ebulição das palavras dentro de mim querendo jorrar, querendo que eu as jogue para o mundo. Se alguém quiser pegar e ler, que pegue; se não quiser, não há problema, porque no mundo elas já estão. As palavras para mim têm vida própria, e as minhas têm uma cadência só dela também. Confusa, caótica mesmo, mas real e intensa.

Se não escrevo, sinto dores — e isso não é figura de linguagem. Necessito de um alívio para as mazelas da vida, e ele vem quando escrevo. Um sentimento de relaxamento, de paz, mas também de muito medo de que quem quer que leia o que escrevo ache uma porcaria e ria da minha cara, das minhas palavras. Não me importo que não gostem de mim, mas me sinto magoado ao extremo se não gostam das minhas linhas.

Escrever, por pior que eu escreva, é tudo o que tenho, tudo o que me resta em uma vida na qual já perdi praticamente tudo o que havia para perder. Se eu perder a minha escrita, não preciso mais viver, pois é ela que me faz respirar. Eu poderia ser viciado em cocaína, mas a minha droga é o que eu escrevo — e sei que o que escrevo é uma droga —, mas simplesmente não consigo parar de digitar e de pensar. As palavras vêm, e, quando pulam para a tela, já existe uma fila imensa que dobra as esquinas dos meus pensamentos, apenas esperando para se materializar e encontrar alguém que as leia.

Pois a função das palavras, a razão de elas existirem, é serem lidas. É materializar pensamentos que ficam rodando na cabeça — ao menos na minha ficam — e pedem passagem a todo momento. Verbalizar é jogar ao vento algo que certamente será esquecido um tempo depois, ao passo que escrever é eternizar. É deixar ali, ao alcance de alguns cliques, tudo o que foi pensado e registrado.

Se eu fosse falar de tudo o que gostaria, ficaria horas aqui digitando sobre como estou gostando de fazer Uber e ouvir as pessoas e suas histórias, ou apenas o silêncio — para mim mais que confortável — que duas ou mais pessoas podem compartilhar em uma viagem de carro. Se eu apenas falar que gosto de futebol americano, as pessoas não lembrarão; mas, se eu escrever, poderão consultar e até fixar essa informação a meu respeito.

Eu quero morrer escrevendo. Por mais que eu saiba que minhas palavras são muitas vezes apenas um amontoado de pensamentos aleatórios que não interessam a ninguém, sei que a mim interessam — e é por este motivo que escreverei até o último dia da minha vida. Se depois de minha morte alguém ler e gostar, terá valido a pena. E, se ninguém se manifestar, sei que valeu a pena da mesma forma, pois, agora mesmo, sinto minha caixa craniana desinchando após tantos dias sem escrever, apenas falando com completos estranhos que entram no meu carro.

O inchaço que eu sentia se foi. A angústia se esvaziou e, embora eu não tenha trocado angústia por felicidade, a paz se instalou porque escrevi. Apenas porque escrevi. Percebi que toda dor, todas as lágrimas que não consigo verter, toda desilusão, toda a perfídia de uma vida difícil, de lutas e cansaço... tudo isso escorreu junto com as palavras que aqui depositei.

Não escrevo por dinheiro, obviamente, e nem por sucesso ou reconhecimento. Escrevo por mim e apenas por mim. Se alguém quiser ler, é bem-vindo. Se não, tudo bem também.

É isso.

(Ouvindo: Lígia – Tom Jobim)

Comentários

Postagens mais visitadas