O Tombo de Trump e o Recado ao Moralismo de Aluguel
Trump tomou uma surra nas eleições para o Congresso e o Senado americano que ocorreram esta semana. Graças ao seu desastroso governo, os republicanos perderam em feudos onde não derrotados há mais de noventa anos. Suas atitudes equivocadas — para dizer o mínimo —, carregadas de xenofobia, preconceito e outros sentimentos praticamente impublicáveis, somadas a uma condução completamente desastrada da economia interna, levaram os candidatos republicanos a uma barafunda histórica.
Guerras externas (como a tensão promovida contra o Irã), conflitos internos alimentados sem motivo aparente além do ódio a estrangeiros, e o alinhamento cego ao governo de Israel — tudo isso, aliado a um custo de vida que não para de subir, encarecendo alimentos via tarifações sem sentido e a gasolina à reboque das crises internacionais —, levou a administração Trump a um nível de impopularidade recorde. O resultado é um presidente sem apoio popular e, agora, refém de um Congresso e de um Senado abertamente hostis às suas demandas.
A derrota de Trump — que só não foi prevista por gente obtusa que acredita em elfos e quetais — é, no fundo, uma derrota muito mais ampla. É a derrota de uma direita que fala em nome de "Deus, Pátria e Família" como se fosse a única detentora dessas bandeiras; como se apenas essa ala pudesse advogar em prol desses temas e como se discordar de sua ideologia ultrapassada fosse um crime de lesa-pátria. Jamais será!
A intolerância de Trump e sua violência verbal afugentaram o eleitor moderado — aquele que, embora seja a favor de cortes de impostos, não compactua com o ódio direcionado a estrangeiros, negros e outros grupos que ele não identifica como "genuíno americanos". Trump parece esquecer que os EUA foram fundados por imigrantes de diversas origens e ergueram sua história sob a promessa de tolerância e acolhimento aos povos.
Idéias absurdas como a anexação da Groenlândia ou do Canadá foram ditas como se fossem algo natural — assim como a retórica de alterar nomes geográficos sagrados como o Golfo do México ou destituir pela força o governo da Venezuela para se apropriar de seu petróleo. Trump sequer disfarçou suas intenções expansionistas e realmente achou que as demais nações baixariam a cabeça apenas porque assim queria o presidente americano. Ledo engano.
E, no meio disso tudo, o fugitivo Flávio Bolsonaro, acoitado por Trump e por Marco Rubio — seu assecla mais importante —, deve estar tremendo de medo quanto ao seu futuro. O novo Congresso democrata terá muitas perguntas a fazer sobre a tentativa de intromissão indevida desta administração americana nas eleições brasileiras.
Trump logo estará jogando golfe novamente na Flórida, e seu vice, J.D. Vance, não terá cacife para se eleger presidente, visto que compactuou com cada desatino do titular da Casa Branca. A direita raivosa e extrema perdeu uma oportunidade gigantesca de se mostrar operante.
A esquerda, sendo bem sincero, também não anima o eleitor — seja nos EUA, seja no Brasil. Uma nova safra de políticos precisa emergir, e rápido: gente forjada nos princípios da honestidade e da disciplina; uma geração de homens e mulheres públicos que se comprometa mais com o eleitorado do que com seus próprios dogmas; que queira promover a prosperidade do povo e não a da sua própria casta de escolhidos; que seja justa, séria e respeite a Deus, mas que, sobretudo, respeite todos os credos (e também aqueles que não têm a Deus como seu guia maior).
Eu creio ser possível que homens e mulheres assim surjam. E você?
É isso.
(Ouvindo: Alegria, Alegria — Caetano Veloso)
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