Cinco Minutos De Paz

 

Quando a chuva cai — não torrencialmente, mas de forma suave, aquela chuva boa de dormir, boa de observar da sacada do 12º andar; aquela chuva que rega as plantas e molha o chão, às vezes tão árido que parece sentir saudades da água que dele vem; aquela chuva que, mesmo caindo lá fora, parece encharcar o coração e a alma com a esperança de que, desta vez, eles vão florescer e se embelezar para seguir na vida de forma menos dura — quando essa chuva cai, eu sinto paz.

Essa chuva me desliga de um mundo cada vez mais sem rumo, onde para alguns Deus "vai evitar o Apocalipse", para outros o fim começará entre cinco e dez anos e, para outros ainda, pode ser "macetado" por uma vocalista de trio elétrico. Essa chuva me aparta dessas e outras questões porque consigo observá-la e entender, ainda que de forma confusa, que ela tem sua finalidade: trazer equilíbrio para o planeta. E, ainda assim, pode ser para mim — um simples grão de areia na vastidão do universo — um alívio em meio a dores, enviado por Aquele que o universo criou.

A chuva, essa que gosto de ver, pode então, por um breve momento, ter sido enviada apenas para mim, para meu deleite, apenas para que eu não enlouqueça ante um mundo que me apresenta questões que cada vez mais não sei responder e situações às quais não consigo reagir à altura.

Hoje, por um breve momento, ela veio. Não durou cinco minutos. Acho que foi uma pancada daquelas que acontecem isoladas, como se apenas aquele local precisasse de sua presença. Não sei se o local precisava, mas eu, sim. E, à medida que ela caía e me acalmava o coração, percebi que muitas vezes fujo de questões com as quais não quero lidar, principalmente quando se trata da morte. Uma amiga querida morreu. Dias atrás, ela se foi.

Nem tivemos a chance de nos despedir. Soube por terceiros e, quando senti o travo amargo da dor em minha boca, logo me refugiei no "isso não me importa, vida que segue". Mas, sim, isso me importa. E importa muito porque éramos amigos. Ainda que houvesse uma enorme distância física, as redes (anti)sociais nos aproximavam em conversas quase diárias — nos últimos tempos bem sofridas, porém cheias de esperança de dias melhores e recomeços. Quando ouvi a notícia, quis chorar de soluçar, mas contive o choro, como sempre faço. Contive minhas emoções porque, afinal de contas, me emocionar não é algo que me faça bem.

Eu simplesmente não acreditei e esperei que ela me chamasse no Instagram, como sempre fazia, nos horários mais absurdos e improváveis, para me falar de suas feridas e tristezas, mas também de seus planos para recomeçar e ser alguém melhor. Não deu tempo. Mas deu tempo de eu dizer que ela já era uma pessoa excepcional. Ao menos isso, deu tempo.

Nunca tive muitos amigos; eu não sei ter amigos. Não sei nem ter colegas. As pessoas, a grande maioria delas, causam-me apenas um terrível e monótono enfado. Ela sempre foi a amiga com quem eu podia rir, com quem podia ser eu mesmo. Não tive tempo de elogiar uma última vez as galochas que ela usava quando adolescente e que viraram botas de jovem senhora depois de adulta.

Não tive tempo de muita coisa, mas tive tempo hoje, enquanto essa pancada de chuva caía, de me recordar de uma amizade real, sincera e leal, em cada detalhe. Recordando, pude agradecer por ter vivido essa história. Reforcei minha admiração por essa chuva: não aquela que causa destruição, mas a que vem e me traz o mesmo sorriso que aquela menina de galochas bacanas me trazia quando chegava à igreja a cada sábado.

Deus sabe de todas as coisas. O problema é que eu não. E, em minha ignorância, choro por sua falta. Ainda que seja um choro interno, eu choro.

É isso.

Ouvindo After The Rain do Aaron and Geoffrey

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