terça-feira, 21 de maio de 2024

Quando Eu Soube

 

Quando eu soube da sua morte, minha primeira reação foi achar que seria uma pegadinha, algo assim. Pensei que viria em seguida uma contra ordem da notícia, que me diriam que foi uma brincadeira de mal gosto, ou que talvez houvesse alguma "moral da história" para se meditar. Não, não foi nada disso. Você realmente tinha morrido e eu estava sabendo com um espaço de tempo considerável entre sua morte e meu conhecimento sobre o fato que simplesmente inviabilizava qualquer pensando de acompanhar os ritos fúnebres  que certamente devem ter acontecido.

Houve um torpor. Um torpor que durou alguns dias. Eu não choro, ou melhor, raramente eu choro. Meus sentimentos são tão meus que não sei dividir com outras pessoas, não sei trazer a tona, falar sobre eles, explicar o que me incomoda e entristece. Só sei escrever e nem isso sei direito haja visto meus textos sempre tão confusos e claramente ruins. Após o torpor, veio a clareza, a realidade que se desenhava sobre você. Ou melhor, sobre sua ausência.

E a primeira coisa que ficou evidente é que não conversaríamos mais. Nem sobre pessoas feias, nem sobre pessoas chatas, nem sobre nossas filhas, nem sobre nossas escolhas de vida e nem sobre mais nada. Sua casa em um terreno milimétricamente escolhido não vai ser mais construída e eu não vou mais te contar sobre meu neto, sobre meu casamento, sobre minha Rafaela. Eu perdi a pessoa com quem conversava.

Não vamos mais falar sobre nossa adolescência, você não vai me contar mais fatos curiosos sobre suas viagens, sobre seu casamento, (um dos meus orgulhos: te ajudar a escrever seus votos). As coisas ficaram cinzas e nem deu tempo de eu ir ver o mar com você e minha mulher como a gente tinha planejado. Confesso que ainda penso em ir a sua cidade com ela, minha mulher, sentar e ver o mar, ver o sol se por ou nascer, tanto faz, a beleza é a mesma. 

Não vamos mais conversar sobre aquele filme sobre a princesa Diana, nem sobre o porque eu fiquei noivo daquela menina que estudava direito mas não tinha nada, absolutamente nada a ver comigo e você ficava me alertando sobre isso o tempo todo. Alias, você me alertou sobre tantas coisas né? A maioria, confesso que não ouvi e nem liguei, mas gostava quando você decidia ser meu grilo falante.

Quando sua mãe se foi, te dei um abraço. o "Elvis" apelido absolutamente jocoso que coloquei no seu namorado da época ficou bravo quando na frente de nossa IASD te dei um abraço demorado e disse sem a menor convicção que tudo ia ficar bem. No final, de uma forma ou de outra, ficou, eu acho. Para seu desespero eu continuo tomando Coca Cola. Tenho uma lata bem aqui ao meu lado enquanto escrevo. Você dizia que isso ainda ia me matar e é bem provável que mate. No fim das contas, quando eu soube que você tinha se ido e eu nem tinha ficado sabendo me deu um vazio. 

Acho que apesar de ser um casmurrão de primeira categoria, tive sorte na vida. Uma mulher que amo, uma filha, que ao, uma enteada que amo, um neto que amo. Todas essas pessoas me fazem  não ter que me preocupar em amar mais ninguém, e ainda bem pois tenho preguiça de amar pessoas, de gostar de pessoas, de me relacionar com elas. Não tenho paciência, odeio ser tocado (a menos que seja para sexo).

Mas nessa lista de pessoas que amo, agora falta você. Você se foi mas vou amar nossas lembranças, as lembranças de uma amiga tão importante, tão única, tão necessária. Não me apego a lembranças, mas no seu caso será diferente assim como é com minha irmã, Fernanda.  Vou sempre me lembrar de suas galochas divertidas, sempre vou me lembrar do seu cabelo indefinido e sempre vou lembrar como concordávamos em quase tudo no Classe X. 

Agora você dorme. Dorme em paz.

É isso.

Ouvindo: Regina Mota

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