domingo, 28 de julho de 2024

No Céu Dos Gatos

 

No céu dos gatos, que ja nasceram pobres, porém ja nasceram livres e que não reconhecem nenhum tipo de senhorio, eu acho que cachorros definitivamente não entram. Não é que gatos não gostem deles, apenas não entendem porque são tão desabridos, tão prontos a revelar emoções, desejos, tão prontos a pedir amor e afeto ainda que seus tutores nem mereçam a afeição que certamente os estúpidos cachorrões os darão por serem como são. Então, o céu dos gatos será um lugar de paz e muita tranquilidade que talvez será interrompida em horários especifícos como os de comer e brincar. Depois, estarão os gatos dormindo, se lambendo, correndo entre nuvens.

Gatos não precisaram de asas. Quem os tem, ou os teve, sabe que eles voam  em altitudes impressionantes apenas com o impulso de suas patinhas. Com asas, creia você que esta lendo: Os gatos dominariam o mundo.Além de não terem asas, não terão as harpinhas imaginárias que ainda hoje tanta gente acham que anjos carregam. Gatos estão longe de serem anjinhos, então não terão harpinhas e nem nada dessas coisas.

Ali no céu dos gatos é certo que muitos riachos hão de haver. Gatos só tomam  água corrente, ou ao menos preferem que assim seja em detrimento daqueles desprezíveis potes com água parada ou ainda aquelas fontes sem graça que humanos bárbaros colocam a sua disposição. Gato gosta de ver a água escorrer, ainda mais porque ele não se preocupa em pagar a conta. Gatos não se preocupam com nada além de seu pote vazio de comida. Isso os faz derrubar portas. No céu deles, embaixo de cada árvore estarão diversos potes cheios da melhor ração que se possa imaginar.

Falando em árvores, o céu dos gatos será quase uma floresta. Gatos precisam de exercícios e um dos favoritos deles é subir em árvores. Sobem e descem na velocidade de um raio e o fazem não para chamar a atenção, mas para sua própria alegria. Gatos não tem o menor interesse em chamar nossa atenção, eles gostam de viver e vivem por eles mesmo.

No final das contas, o que mais haverá no céu dos gatos, o que o permeará de forma indubitável é o amor. Lembram que eu disse ou melhor citei a canção, que os gatos ja nasceram pobres e livres? A liberdade de um gato é o seu maior bem. E ele a usa principalmente para escolher  a quem amar. Um gato quando te ama, te ama de todo coração ainda que ele esteja sempre na dele parecendo quase indiferente. Do nada, ele vem e te pede carinho, ou te da a cota de carinho disponível e depois volta absorto, ao mundo dele.

Mas não se engane. Ele esta ali preso aos devaneios inacessíveis da mente de um gato mas esta te vendo, te sentindo. Se você esta triste, ele percebe. Se esta feliz também. Ele esconde sua própria doença caso ele a tenha ate onde for possível mas saca na hora se você não esta bem de saúde e planta posição ao seu lado. Um gato te ama de forma incondicional e quando ele vai partir tenta se esconder, não por orgulho, mas para não te ferir. Ele sabe que você está triste e não quer deixar você ainda mais devastado.

No céu dos gatos, eles vão correr, pular, dormir, dormir muito na verdade, beber água do riacho, subir nas árvores, se estranhar (porque gatos vivem se estranhando com outros gatos), vão comer a cada pouco de tempo porque eles são tão educados que acham horrível nosso hábito humano de comer toda a refeição em uma sentada só. Aposto que nos chamariam de deselegantes se pudessem. Lá no cantinho que eles vão após sua partida,  eles serão tão feizes como foram aqui, ou os que não foram felizes aqui, finalmente encontraram a paz.

Mas uma coisa ninguém tira da minha cabeça desde a partida da Mel, minha gata garota. No céu dos gatos, eles estão olhando para seus tutores que os amaram tanto, com amor redobrado. Eles não precisam esperar que Jesus volte pra buscar seu povo, eles já estão por ali com Ele, o céu dos gatos é um anexo grande e lindo do céu que nos aguarda. Dali eles diriam se pudessem para que seus tutores não chorem por eles, que eles estão bem. Diriam o quanto foram felizes a cada vez que brincaram, a cada foto que marotamente estragaram de propósito fugindo do clique na última hora só pra nos sacanear.

Quanto a Mel, eu sei que ela agradeceria as caminhas quentinhas que durante 10 anos preparamos para ela nos dias de inverno. Sei que ela do céu dos gatos se lembra entre risadas felinas e uma certa melancolia, do dia que fugiu e fugida ficou por uma semana até que em uma noite chuvosa conseguiu acessar a janela de nosso quarto e miar suplicando para entrar e quando entrou, com tantas pulgas que parecia ser as pulgas que tinham um gato e não contrário,, foi alimentada com um pote imenso de ração em que dispensou a etiqueta felina e comeu de uma vez.

Mel certamente sente falta lá do céu que esta de nos acordar na madrugada para que ficassemos desesperados tentando adivinhar o que a incomodava e quando davamos por nós ela ja dormia novamente. No céu dos gatos, as boas lembranças são uma constante, norteiam a espera deles por nós. Aqui, eu to quase acreditando plenamente em Deus e sua volta a Terra apenas para esperar que ele me entregue a Mel nos braços, pra ela no mesmo momento pular e correr para os braços da Graziela ou da Vitória. Tanto faz para mim, desde que eu a tenha por perto pela eternidade.  

Mel, minha gata garota nasceu pobre, porém nasceu livre. Senhorio alguém ela jamais reconheceu mas nos amou de graça e cheia de graça como só um felino pode fazer. Obrigado, Mel.

É isso.

Ouvindo: História de Uma Gata

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