Sou grato a Eça de Queiroz pelo que para mim é o maior romance escrito em língua portuguesa, "Os Maias". Esqueça Jorge Amado e suas chatices sobre a Bahia (exceção feita a morte de Dora em Capitães da Areia que me faz chorar só de lembrar e que sei recitar de cor). Esqueça Zélia Gattai. Ainda que tenha escrito Anarquistas Graças a Deus. Fez isso e só. Nada mais relevante. No Brasil terra de romancistas bobocas, nada se produziu que se compare a "Os Maias", nada.
Os Maias tem tanto a oferecerem termos de leitura, de prazer pela leitura, de sentar-se com uma xícara de chá quentinho e ler absortamente por horas, de parar, respirar, voltar a ler, voltar ao que já se leu para entender o que se está lendo (será que o autor se enganou com essa aparente contradição de seu personagem? será que eu entendi errado?).
Bom, o único livro que em tese não pode se contradizer é a biblia. de resto autores que são lineares costumam ser chatos para um caralho. Eça, de chato não tinha nada. Sua escrita concisa descendo a lenha na hipocrita sociedade Portuguesa (Portuguesa apenas porque o romance se passa em Portugal, por óbvio, mas ele desce a lenha na hipocrisia que existe e resiste no mundo, mesmo nos dias de hoje), nos leva a um mix de emoções tão fortes, tão precisamente colocadas que não raro me pego com o coração aos pulos diante da perfeição do encadeamento de suas ideias transformadas em palavras tão perfeitas. Eça foi dos grandes da literatura mundial.
Também agradeço a Maria Adelaide do Amaral. Eu creio que o fato de ter nscido em Portugal e ter passado a infância por lá tem muito a ver com o primor da adaptação que escreveu do romance Os Maias para que ele fosse uma minissérie na TV Globo. Como Portuguesa fica claro que ela entende de Eça e entende obviamente de Portugal. Sua adaptação é calcada no próprio romance, sem liberdades desnecessárias que atrapalhem ou deixam a beleza do texto obtusa. É um prazer assistir o que se passa na tv e entender que a escrita de Maria Adelaide enxugou o que foi preciso por se tratar de uma obra para a televisão mas manteve a essência, a beleza e a genialidade de Eça. Maria Adelaide, valeu! Importante: Falar de Maria Adelaide do Amaral e nao citar seu espetacular livro,"Aos Meus Amigos", seria no mínimo imbecilidade de minha parte. Quem não leu, leia. Fascinante.
Por fim, agradeço a Rede Globo de Televisão. Falem o que quiser, chamem de rede esgoto, de vendida, de inimiga do Bolsonaro (ai tenho que agradecer de novo), do que quiser, enfim. Somente a Globo poderia deslocar mais de 100 pessoas entre elenco e produção para passarem quase 2 meses em Portugal gravando a maior parte da série por lá. Só a globo poderia contar com o espetacular Walmor Chagas no elenco e com todos os outros grande e maravilhosos atores e atrizes que deram vida aos personagens com menção especial a Osmar Prado que construiu a partir de um personagem coadjuvante (o poeta Alencar), uma interpretação que emociona a cada entrada em cena. Sem a Globo apostando inclusive em uma trilha sonora recheda de clássicos do Madredeus e com criações de John Neschling, o livro não seria consumido ainda que de forma condensada por tantos e tantos brasileiros.
Obrigado, Eça, obrigado Maria Adelaide Do Amaral, Obrigado Rede Globo (esgoto, glóbulos, ou o que mais você quiser chamar).
É isso.
Ouvindo. Madredeus
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