quarta-feira, 30 de outubro de 2024

A Fria e Longa Noite Que Se Aproxima

 

Talvez ela não seja necessariamente fria e muito pelo contrário seja excessivamente quente dependendo de  seu lugar no planeta. Talvez ela não seja noite, seja um dia com chuvas torrenciais e ou com um Sol escaldante que literalmente vai matar a muitos, a milhares, talvez milhões. Talvez seja algo tão catastrófico e incompreensível que mude nossa concepção de dia/noite e tudo se funda em um longo período de tempo indefinido. Talvez as baratas sobrevivam. Talvez, nem elas.

Até que este dia chegue, provavelmente não estaremos mais aqui, podemos muito bem estar já que as mudanças climáticas estão se acelerando a um nível absolutamente inesperado e que mesmo cientistas renomados não conseguem bem compreender. Mas estejamos aqui ou não, esse momento chegará. Nossos filhos, nossos netos e os filhos dos nossos netos, se eles ousarem concebe-los, serão atingidos diretamente por nossos erros ou no caso da grande maioria da população por nossa passividade. 

Erros daqueles que comandaram e ainda hoje comandam o mundo e passividade dos comandados que aceitam tantos desmandos sejam eles políticos, sejam eles decisões que acabaram por afetar o clima em nosso planeta até o ponto do irreversível. Sim, é praticamente impossível mudar a situação atual e o mundo, em compasso de espera, vai sofrer as consequências. Claro que os ricos sofrerão menos, como sempre foi em nossa história e claro que os miseráveis serão os primeiros a perecer diretamente afetados pelo caos. Homens e mulheres vendo seus filhos e a si próprios morrerem de fome, de sede, de frio extremo, de calor extremo, por conta de pandemias... Bom, escolha você na lista de desgraças, alguma delas se abaterá sobre cada um de nós.

A esperança não me acalanta mais. Visto por olhos humanos e descrentes o mundo como acabei de dizer apenas aguarda enquanto marcha para a morte. Não existirão ET'S desembarcando em naves espaciais para nos resgatar. Não haverão soluções mágicas para anos de desmatamento desenfreado, de aquecimento global que poderia ter sido evitado, de contaminação de nossas fontes de água potável. 

Sinto dizer que ao contrário do que acreditam Caetano, Betânia e Milton (de Milton é a minha versão preferida), um índio não descerá de uma estrela colorida e brilhante. E se descer, vai tratar de embarcar  rapidinho novamente para  fugir dos gases tóxicos que certamente encontrará por aqui. O axé do Afoxé  filhos de Gandhi será apenas uma lembrança distante e para alguns, saudosa. Nem a mais avançada das mais avançadas das tecnologias vai ser capaz de nos livrar da desdita que espreita a poucos metros em nosso futuro. 

E essa desdita que nos aguarda, nem terá que nos atacar. Cairemos em seus braços, empurrados por nossas próprias escolhas e poderemos observar de forma horripilante como ela nos devorará sem dó e sem pressa, afinal, o tempo, relativo como é, corre imponente independente dos seres humanos que estão ou não aqui neste minúsculo planetinha azul para observar a sua ação.

O mundo como conhecemos hoje que foi e em grande medida ainda é, tão lindo, é um mundo condenado a cada dia ver sua beleza se extinguir, desaparecer como lagrimas na chuva, uma chuva que em breve estará tão ácida que vai acelerar nosso fim. Estamos fadados a morrer, isso é evidente, nascemos sabendo que morreremos, que temos um tempo de validade determinado. Só não precisávamos ter contribuído tanto para nossa própria morte.

A fria e longa noite que se aproxima de nós, enquanto fingimos não ver, enquanto bebemos, dançamos, casamos e nos damos em casamento, logo irá nos tragar. Não pedirei piedade a Deus. Não a merecemos. Nós, seres humanos, temos mais é que nos foder mesmo, sem dó.

É isso.

Ouvindo: Milton Nascimento, Um índio/Rebanhão Palácios


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