Estou no Morumbi. Mais precisamente, no Jardim Guedala. Só, em um plantão, como tantas outras vezes estive só, em tantos outros plantões. Olho para a rua e vejo o congestionamento se formar. Carros buzinam impacientes como se suas buzinadas tivessem o condão de fazer o transito se abrir como se abriu o Mar Vermelho para Moisés e seu povo. Não vai acontecer. Ficarão encalacrados durante horas porque é assim que a vida funciona em São Paulo quando chove. Tudo para.
Eu estou aqui, no salão de vendas, protegido da chuva, absorto em meus pensamentos, tentando colocar para fora tudo o que gostaria de dizer. Eu sempre tenho algo a dizer, sempre tenho opiniões a dar, palavras a serem ditas. Porém, ultimamente, tenho me calado. Mal me reconheço mas me sinto feliz com meu silêncio. Não quero mais ser aquele que sempre expele sua opinião com tanta força e rapidez que atropela a todos os que estão em volta com a torrente de palavras na maioria das vezes desnecessárias. Falar, eu tenho percebido cada vez mais, é algo que deve ser feito apenas quando se tem relevância na palavra dita. Caso contrário, o silêncio é muito mais interessante e diz muito mais sobre quem o guarda do que palavras ao vento.
Não que eu não goste mais de falar, pelo contrário. Mas me reservo e me reservando tenho me descoberto por incrível que pareça, melhor.. Sem ter que explicar a todo o momento o que quis dizer, eu posso apenas ouvir e quanto mais eu ouço, mais consigo elaborar a valia do silêncio, não apenas do meu, mas do silêncio como uma forma de se conduzir a vida que todos deveriam adquirir. Eu, por não saber me calar, me meti em inúmeras enrascadas durante minha vida e hoje percebo o mal que o excesso de palavras me trouxe. Fosse eu silencioso como hoje ao menos tento ser, minha vida teria sido completamente diferente.
Aprender a não dizer nada apenas por dizer, falar apenas na hora de falar, como diz a brilhante canção dos Secos & Molhados, me faz automaticamente ouvir mais. Prestar mais atenção ao que é dito em minha volta, analisar mais o teor dos discursos, identificar o que é fala e o que é falácia, o que é som e o que é ruído, o que necessário do que é inútil. Hoje entendo perfeitamente porque a Bíblia classifica o falar como prata e o silenciar como ouro. Faz todo sentido.
Confesso que tenho saciado minha necessidade de fala, falando apenas comigo mesmo, em tom baixo, quase inaudível, corrigindo minhas ideias equivocadas e me congratulando com as falas que fazem sentido. Eu quero cada vez me calar mais, quero cada vez mais saber identificar rapidamente a diferença entre som e ruído.
É isso.
Ouvindo: Secos e Molhados
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