Quando falo de dores, ao menos neste post especificamente, falo das dores físicas que me acometem. Não é uma metáfora para falar de emoções em ruínas, frustrações ou coisa que o valha. Não. São dores mesmo. Falo das minhas panturrilhas que parecem sacos de pancada de academia de boxe. Falo das plantas dos meus pés que formigam, latejam e doem, tudo ao mesmo tempo. Falo do meu estomago sempre revirado que hora me leva ao banheiro por múltiplas vezes ao dia, hora me afasta dele por dias, muitos dias. Falo da minha visão embaçada na maior parte do tempo e me impede de per uma tabela de preços sem ter que recorrer ao zoom do celular.
Falo de um corpo frágil, a cada dia mais frágil. Sem forças, cada vez mais incapaz de defender-se dos ataques da Diabetes, a verdadeira inimiga que se antes se mantinha apenas a espreita com ataques ocasionais, agora resolveu se instalar em meu corpo e fazer dele seu escritório e área de atuação. Falo de uma sensação de incapacidade para lidar com a fragilidade física que percebo cada dia mais evidente em mim me tolhendo aos poucos de hábitos e afazeres que antes eram tão banais que nem pensava antes para fazer. Falo de uma vida que a cada dia mais me parece escorrer pelos dedos como a areia de uma ampulheta (objeto que por algum motivo que não sei dizer, sou obcecado), me mostrando a verdade de um tempo que se esgota a cada dia.
Metáforas sobre ampulhetas e sua areia que escorre são um óbvio sinal de que a vida se esvai aos poucos mas de forma visível. Todos morreremos, é claro, mas a magia da vida ao meu ver esta em não saber quando isso ocorrerá. O mais simples vislumbre de que talvez eu saiba quanto tempo eu tenho de vida me deixa o corpo gelado e uma mistura de medo, tristeza e solidão me invade. Sou conformado com a ideia de morrer mas não quero saber se vai ser hoje as 15:00 ou daqui a 30 anos.
Aos 51 anos, o homem que me tornei, com dores generalizadas, mal estar regular, visão reduzida e um pessimismo sobre tudo que nunca foi meu escancara o conceito de finitude que me parecia tão distante. Me sinto como o carrinho de corrida de um jogo que eu adorava quando criança, o Enduro. Nele, para ultrapassar as fases, era necessário percorrer vários terrenos com neve, com neblina, com chuva e vários outros obstáculos no menor tempo possível, correndo como se não houvesse amanhã. Descobri então, que a diferença entre juventude e maturidade esta entre outras coisas, em perceber que sim, existe amanhã e que no meu caso, talvez já sejam 23:30 do dia de hoje, ou seja, o amanhã esta chegando e talvez ele, o amanhã, seja o último a ser vivido pois como a água doce, o amanhã é um recurso finito que se mal gerenciado se esvai bem antes do que deveria.
Meu estoque de água e de amanhãs, esta se indo. Não consigo nem imaginar que haja um "depois de amanhã" e talvez me reste apenas mais 30m até que o ponteiro marque o fim do meu hoje. Enquanto escrevo, minhas panturrilhas ardem e o meu peito, esse sim de forma metafórica esta em chamas. Para muitos, descobrir que o fim está próximo traz paz. Para mim, traz angústia e sofrimento.
É isso.
Ouvindo: Carpenters
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